segunda-feira, 6 de maio de 2013

Relatório sobre a greve dos professores

               No dia 26/04 a Secretaria da Educação publicou uma nota de repúdio à greve dos professores da rede estadual de São Paulo, declarando que “é lamentável que a Apeoesp se paute por uma agenda político-partidária”. De fato, não estava mentindo. Conforme as eleições se aproximam, a disputa entre os partidos hegemônicos do país (PT e PSDB) fica mais acirrada, e todos meios são válidos, inclusive, a greve. Contudo, reduzir a greve ao interesse político-partidário da Apeoesp, que hoje tem sua cúpula dominada pelo PT, seria um equivoco prejudicial, visto que ela pode nos dizer muito mais.


                A manifestação dos professores na Avenida Paulista no dia 26/04 e no dia 03/05, se constituíram em duas vitórias, sendo uma eufórica e de pouco significado, e a outra trágica, mas com um significado extremamente valoroso. No dia 26/04, os manifestantes ( basicamente, professores do estado, estudantes secundaristas e estudantes universitários, estando neste dia em número maior do que nos outros), em honrosa ousadia, tomaram por completo a Avenida Paulista! Ocuparam as duas vias, causando quilômetros de congestionamento pela cidade de São Paulo. Em um depoimento no site da folha, uma cidadã descontente com o ato descreve que levou “uma hora e 20 minutos apenas para percorrer as 12 quadras que separam a avenida Brasil da Paulista”. Foi um ato efetivo na medida em que chamou a atenção e atrapalhou (literalmente, parou as ruas de São Paulo), e até mesmo subversivo visto que não estava nos planos da cúpula sindical da Apeoesp, e provavelmente, contrariava os interesses da mesma, se pensarmos no resultado que o ato causou na manifestação seguinte.

                No dia 03/05, foram tomadas todas as medidas para que a ocupação completa da Paulista não se repetisse. Quando a primeira via da Paulista foi tomada pelos manifestantes, os líderes da Apeoesp pediam pelo microfone para que ela fosse desocupada, ao mesmo tempo, pessoas do sindicato faziam esforço entre os manifestantes para que eles voltassem para o saguão do MASP (A APEOESP de Assis, nesse momento, declarou não voltar a levar os estudantes da UNESP de Assis para as próximas manifestações da greve dos professores, acusando-os de “radicalizar a greve”). Uma vez que os manifestantes não lhes deram ouvidos e a avenida permaneceu ocupada, formou-se um cordão de policiais militares impedindo a tomada da outra via.

                Durante a Assembleia, a cúpula da Apeoesp se esforçou ao máximo para amenizar os efeitos do manifesto, tentando, por exemplo, tirá-lo da Paulista, e falhou miseravelmente diante de um público que lhes negava todos os apelos. Sem sombra de dúvida, a questão mais significativa foi a da união da greve dos professores do estado com a dos professores municipais. Se, tal como disse a Secretaria da Educação, a greve dos professores foi puxada pela Apeoesp com o objetivo de pressionar o governo psdebista no Estado de São Paulo e chamar votos para o PT nas eleições de 2014, a partir do momento em que a greve dos professores do estado se unir com a greve dos professores do município, a Apeoesp (e o PT) teriam dado um tiro no pé, pois como a prefeitura de São Paulo é do petista Fernando Haddad, a greve, agora unificada, deixaria de ter um sentido partidário e passaria a se apresentar como ela realmente tem sido desde o começo: um manifesto popular de descontentamento para com a qualidade da educação pública.

                Mediante o perigo, a Sra. Bebel, presidente da APEOESP,  prolongou a Assembleia por 1 hora e meia gritando argumentos contra a união das duas greves, enquanto o povo respondia eufórico e incessante: “Unifica! Unifica! Unifica!” Quando finalmente as pautas se abriram para votação, foi decidida a continuidade da greve, e a cúpula da Apeoesp perdeu em sua proposta de tirar a greve da Paulista. Quanto a pauta da unificação da greve dos professores  do estado e município, num ato de omissão autoritária,  ela se quer foi aberta para votação!

                Quando a manifestação desceu a Paulista, agora presa a apenas uma via pelo cordão policial que a acompanhava, o carro de som da Apeoesp paralisou o andamento do manifesto para que ele não seguisse pela Avenida da Consolação, e entrasse na Bela Cintra. Sabendo o efeito negativo que causaria no ato, parte considerável dos manifestantes se negaram a atender ao pedido da Apeoesp, abrindo um novo momento de discurso da Sra. Bebel contra o povo de sua própria greve. Depois de quase meia hora de inércia conflituosa entre burocracia sindical e base popular, parte considerável dos manifestantes contornaram o bloqueio policial e seguiram pela Avenida da Consolação (momento onde houve pequenos conflitos também com a PM), mais uma vez, batendo de frente com os interesses da cúpula do sindicato dos professores. Apesar do ato de soberania popular, daí em diante um clima de desgaste e desânimo pairou sobre a manifestação, conseguindo até mesmo desviá-la de seu trajeto oficial quando perto da Praça da República.

                Apesar do clima trágico do fim da passeata política dos professores do estado, ela foi uma vitória de grande importância. Afirmo isso porque a Assembleia e a manifestação dos professores do dia 03/05 demonstrou a perda de controle total da base popular pela burocracia sindical! Base e sindicato, povo e burocracia, se mostraram como duas partes antagônicas, cada uma com interesses próprios e opostos. Mais do que isso, foi possível abrir espaço até para a crítica de uma crise da democracia parlamentar! O sindicato mostrou-se incapaz de defender os interesses dos trabalhadores, e pior, mostrou-se como um órgão de poder dotado de interesses próprios e opostos aos dos trabalhadores que deveriam representar. Por trás dos sindicatos, os partidos que atuavam também se colocaram na mesma situação. Isso demonstra que o sistema democrático demanda uma superação do sistema “representativo” para o nível “participativo” de democracia, e tal sistema político deve ser construído popularmente a partir de agora. Em outras palavras, está em boa hora para “o povo aprender a andar com as próprias pernas”.

                Além disso, o apoio considerável dos estudantes secundaristas aos seus professores mostrou-se um fato inédito nesta greve, evidenciando um boom de consciência política em resposta a um período de apatia e indiferença da juventude para com seu “eu” cidadão. Não podemos saber o que acontecerá na Assembleia do dia 10/05, mas algumas coisas podem ser previstas: o número de participantes pode diminuir em decorrência do descontentamento dos conflitos da ultima manifestação e do desgaste da greve, a Apeoesp pode começar a se sentir interessada pelo fim da greve para que não haja unidade com os professores do município, a repressão policial pode aumentar. O dia 10/05 será um dia para pessoas de coragem.

                Ainda que a greve acabe sem nenhuma de suas demandas atendidas, com sorte, ela será lembrada futuramente como uma divisora de águas. É nesse momento que devemos lembrar que as conquistas realmente significativas de uma sociedade, dificilmente são alcançadas imediatamente, e sim, num processo revolucionário permanente, que deve fluir desde mais aberta manifestação política ao mais singelo agir cotidiano.

                                                                                                                      Lucas Alexandre Andreto.












Praça da Sé










































Artistas do brilho



Praça da Sé, tarde de um sábado de 2013. Muitos personagens, de variados gêneros. Um verdadeiro mosaico, com cores e novas sonoridades da cidade. Impregnada pela pressa e os abismos sociais. Turistas, plaqueiros, moradores de rua, músicos, pastores e alguns velhos engraxates. Aquele acariciar do pano no sapato, fez o tempo volver.

Ao som de Adoniran o sapato de cromo ia sendo engraxado, com a grande habilidade desse artista do brilho. Com escova, panos e graxa a obra de arte é feita. A fila exige a rapidez do processo. Homens de negócio alinhados sentam-se a cadeira. Trabalho não falta, nem ilustres presenças e boas histórias. Mas o tempo passa, assim como as pessoas no novo ritmo da cidade.

Permanece em sua cadeira, observando atento a mesma praça há 59 anos. Constata nostálgico a atual deselegância discreta. Os homens de sapato bacana e chapéu deixaram saudade a seu oficio.

Invisível para a maioria que hoje ali passa. Códigos da cidade que cresceu em ritmo amedrontador diante desses olhos inquietos. Antes praça, agora superpraça. A Sé que engoliu a vizinha praça Clóvis Bevilacqua para abrigar a principal estação da cidade. Antes tinha bonde, hoje o metrô .

Curvado, cabelo e barba branca. Boné protegendo do sol forte que faz no dia. Camisa larga amarela com os primeiros botões abertos, calça cinza e sapato marrom. Mãos manchadas pelo sol e marcadas pelo tempo, que continuam em atividade. Primeiro cliente do dia, aquele cliente de sempre. Velhos e seus costumes velhos. Duas barbas brancas vivendo a memória afetiva da cidade de outros tempos. O passado e o presente se permeiam em uma só camada, um transe compartilhado. O processo de lustrar os sapatos continua o mesmo, mas a praça e seus transeuntes não. Profissão que parece estar fadada a extinção na geração do tênis.

segunda-feira, 22 de abril de 2013


Sobre a situação no campus da Unesp em Ourinhos.

            Dia 22 de Abril, estive na Unesp de Ourinhos em apoio à greve dos estudantes, e mediante o que presenciei, não posso deixar de fazer algumas considerações.

            A Unesp de Ourinhos situa-se numa espécie de “campus improvisado”, um tanto distante da cidade. Bolsas de auxílio a estudantes pobres estão em atraso há três meses; não há Moradia Estudantil e a construção da mesma não está nos planos do governo; não há Restaurante Universitário e a construção do mesmo não está nos planos do governo; a construção do novo campus está atrasada desde 2010. Mediante estes fatos, a greve estudantil tornou-se praticamente inevitável. Mas há quem seja contra.

            A principal oposição à greve na Assembleia Estudantil deste dia 22, se deu por conta de alunos que perderão a oportunidade de uma viagem à pesquisa para o Rio de Janeiro, e também uma possível reprova na matéria “Trabalho de Campo”. Não pretendo repetir aqui a discussão à respeito desta pauta, deixando apenas o fato de que outros alunos, pela perda dos auxílios estudantis, não poderiam realizar nem a viagem, nem a matéria, devido à sua demanda de custo. O que pretendo discutir são outras criticas feitas à greve.

            Antes de qualquer coisa saliento que foi interessante notar como os estudantes da Unesp de Ourinhos estavam preocupados em não ofender seus adversários de posição em relação à greve com suas “opiniões”. Nesse sentido, aconselho meus respeitados companheiros de Ourinhos que deixem de se preocupar com esse detalhe, pois o que se faz numa Assembleia Estudantil é um embate de “críticas”, e “críticas” não são meras “opiniões”, e reduzi-las a essa forma individualista burguesa seria o mesmo que deixá-las impotentes. Visto que críticas são feitas à base do conflito, não se deve pedir desculpas por isso.

            A minha primeira crítica da crítica diz respeito à afirmação de que, dentro do coletivo estudantil, os grupos prejudicados pela greve também são uma parte do coletivo, assim como os professores são outra parte do coletivo, e outro determinado grupo é outra parte do coletivo, ou seja, são grupos de pessoas, são “outros” cuja situação deve ser pensada. Esta crítica pretende a fragmentar a o verdadeiro coletivo, que é o conjunto de todos os estudantes, e cujo princípio universalista a ser defendido no momento, é a permanência estudantil. O resultado de tal afirmação não pode ser outro que não a desmobilização do coletivo através da perda do sentimento de uma causa comum que interessa e une a todos.

            A segunda afirmação, que diz respeito a “ilegitimidade da greve e da Assembleia”, merece atenção especial. Afirma-se que a greve é ilegítima por ter sido decidida numa Assembleia Estudantil, que por sua vez é ilegítima por, 1) não ter a participação de todos os alunos do campus, sendo assim incapaz de representar a vontade da maioria; 2) Não ter um órgão burocrático que à oficialize.

            A Assembleia Estudantil é de todos os estudantes, e todos tem o direito e dever de comparecer a ela. Contudo, quando um estudante não aparece, é como se ele estivesse dizendo “não estou interessado no assunto da Assembleia, portanto, abro mão de meu direito de me expressar e votar”. Trata-se da aplicação do principio aristotélico de que “quem não gosta da política, esta condenado a ser governado por quem gosta”.

            O segundo item, que tem um apego fetichista ao “oficial”, a “lei impressa” e portanto ao “papel”, desconhece a “soberania popular”. A relação entre Justiça e Direito é ambígua, podendo o Direito não corresponder a Justiça e vice-versa. Atualmente, tendemos a acreditar que tudo aquilo que acontece à margem do Estado de Direito seja necessariamente ilegal e profundamente antidemocrático. No entanto, a Justiça pode manter uma relação estranha com o Estado de Direito que, longe de destruir ou fragilizar a democracia, a aprofunda e fortalece, e essa possibilidade é a “soberania popular”. Para entendermos esse conceito, basta lembrarmos que quando se fez a primeira greve pelo direito de greve e de um sindicato, a greve era, por lei, um crime, e o sindicato, um órgão ilegal. Se não fosse o desrespeito a lei impressa nesse dado momento histórico, ainda hoje não teríamos o direito, garantido pela lei impressa, de greve e de sindicato.

            É uma contradição em si mesmo dizer que, em um momento como o da Unesp de Ourinhos onde os estudantes foram compelidos pela situação a tomar uma atitude de enfrentamento ao poder, essa atitude (a greve, a Assembleia, etc) seja ilegítima porque nenhum órgão de poder lhes deu permissão.O que quero dizer aqui é que a Assembleia Estudantil de Ourinhos, assim como a greve que ela decidiu, é legítima, e ainda mais legítima do que seria se organizada por um D.A., pois ela se construiu de forma autônoma pelos estudantes. Em Assis, o D.A. por várias vezes convocou Assembleias em que ninguém compareceu. Em Ourinhos, não foi preciso de um D.A. para que acontecesse a Assembleia com uma participação significativa por parte dos estudantes, e que dela, saísse uma greve completamente autônoma, movida pela sua simples necessidade óbvia. Nada poderia ser mais legítimo do que essa demonstração de uso da soberania popular.

            É lamentável vermos numa universidade pública renomada como a Unesp afirmações como a de que “historicamente, as greves conquistam muito pouco do que pedem”, justamente porque historicamente as greves se mostraram um instrumento poderoso de manifestação, conseguindo os mais variados direitos da atualidade, como um máximo de 8 horas de trabalho, salário mínimo, direito à sindicato, e até mesmo a existência de uma universidade não elitizada. Nesse sentido, pode parecer que a greve só produz resultado à longo prazo, mas esta não é a realidade, sendo inúmeros os casos de greve onde trabalhadores conseguiram suas pautas de modo imediato. Um exemplo no contexto do movimento estudantil é a Moradia Estudantil da Unesp de Assis que foi conseguida mediante uma ocupação. Logo, “seria de muito bom tom, e de muito bom senso”, que aqueles que afirmam que “historicamente o resultado das greves são poucos” escolhessem para si o adjetivo da ignorância (no sentido de que desconhece a realidade histórica e nem se preocupou em conhecê-la antes de fazer tal afirmação) ou da hipocrisia.

            Deixo aqui meu sincero apoio aos estudantes grevistas da Unesp de Ourinhos! O movimento estudantil deve, necessariamente “lutar, criar poder popular”!


Lucas Alexandre Andreto.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Autorretrato.


Paulistana, de família italiana. Descendente de mafiosos? Não, simples agricultores. Seus pais são de origem humilde, mas ela tem vida confortável. Morou em Santos, foi menina da praia. Agora a cidade a abriga, completando-a. Piercing no nariz, cabelos ondulados e mar no olhar.
Propensa tanto ao furor quanto a ternura. Já se perdeu, tem se encontrado. Adora crianças e animais pelo mesmo motivo. Não gosta de frutos do mar. A julgam calma, discorda. Parcialmente organizada e esforçada. Gosta de interagir com as pessoas e de tentar entendê-las, nem sempre consegue mas acha fundamental a tentativa.
Podemos defini-la como as músicas que escuta. Sua personalidade é forte como o Rock; voz doce como a MPB; índole pura como a Música Instrumental e sentimentos profundos como o Jazz e o Blues. Estudante de jornalismo, escolha certeira. Não fuma, bebe, mas faz tudo que gosta. Animada, gosta de explorar o desconhecido.
Escolhe com muito cuidado suas amizades. Se não lhe agregam, deixa que se vão. É intolerante por vezes. Quando come gnocchi sente-se feliz, lembra de sua avó. Mora com pai, mãe, irmão e um cachorro. Acredita  que ser mãe seja uma experiência que construa e renove rumos na vida. Sonha em ter filhos e a ensiná-los tudo que sabe. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Dos versos para os trovões


As grandes mudanças na sociedade, ainda quando se dão de forma silenciosa, podem ser sentidas através da mudança do imaginário e da mentalidade social. As mudanças nos significados de algumas palavras, do uso que a elas são empregados e até mesmo o surgimento de palavras novas são um exemplo. Em Homenagem a Catalunha, George Orwell narra que durante a Revolução Espanhola de 1936, quando as fábricas e os campos foram tomadas pelos trabalhadores e passaram a funcionar sobre um sistema de autogestão operária, as formas servis e cerimoniosas de tratamento desapareceram e ninguém mais dizia “Señor”, ou “Don”, ou mesmo “Usted”, e todos se chamavam de “Camarada” e “Tu”, dizendo “Salud!” ao invés de “Buenos dias”. Orwell conta que até mesmo o comandante da tropa republicana em que lutava, nas fileiras do POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista), certa vez repreendeu um soldado por tê-lo chamado de Senhor Comandante, e não de Camarada, pois todos eram igualmente humanos, e deviam executar suas tarefas por responsabilidade e consciência, e não por obrigação e servidão.
            Até, pelo menos, 1964, sabemos que a palavra “Revolução” tinha uma conotação positiva, e uma expressão evidente disto foi sua adoção pelos militares brasileiros para batizar e dar ares de justificativa democrática ao golpe de 1 de abril. Hoje, pouco a pouco “Revolução” toma um significado negativo, remetendo a crise política, invasão e destruição da propriedade privada, violência social, enfim, como se fosse um sinônimo de “Caos”. O próprio mito em que se constituía a palavra “Revolução”, ou seja, o mito da emancipação e libertação humana, vem sendo substituído por outros mitos. Um sinal disso, talvez seja a tradução brasileira que recebeu o filme norte-americano Thirteen Days, baseado no livro de mesmo nome escrito por Robert Kennedy (irmão de John F. Kennedy) em 1968, que é “Treze dias que abalaram o mundo”, uma alusão clara ao “Dez dias que abalaram o mundo” de John Reed. No livro de Reed, a Revolução Russa é apresentada como uma história épica onde a humanidade “assalta os céus”, mostrando que o “impossível” é possível e a “utopia” é realizável. Em “Treze dias que abalaram o mundo” a épica da emancipação humana é substituída pela épica da possível destruição completa da humanidade, ou seja, a crise dos mísseis cubanos. Trocamos “emancipação da humanidade” por “destruição da humanidade”, e então vendemos isso como espetáculo a ser consumido em todas as casas. Por trás destra troca, há outra, que é a troca da “Revolução” pela “Guerra”.
            Já não estamos na época das ditaduras militares, mas é interessante notar o cunho militar inserido em muitas das “imagens que consumimos”. Todos aqueles filmes hollywoodianos colocando Hitler e seu nazismo como o inimigo mais poderoso e fenomenal de todos, não acaba de alguma forma, fazendo propaganda do mesmo? Por que os heróis dos filmes, quando “reais”, são na maioria das vezes “heróis de guerra”? Mesmo os heróis fictícios, muitas vezes, são ao mesmo tempo, heróis de guerra, de forma que Capitão América e Wolverine constituem dois exemplos. Nos novos filmes do Batman, as Empresas Wayne são empresas de produtos bélicos, e o próprio Batmóvel é um tanque de guerra super-desenvolvido em estágio experimental. Também é sintomático que o livro “A Arte da Guerra” de Sun Tzu, venha hoje com um subtítulo propagandístico dizendo algo como “aprenda a ser dar bem na vida empresarial”, o que significa deixar claro que nossa vida econômica é uma guerra.
            O último filme do Batman, “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, torna-se emblemático na leitura da construção desse imaginário atual. No filme, o herói burguês Bruce Wayne, juntamente de toda a polícia de Gothan City, trava uma batalha contra Bane e sua multidão de bandidos. A polícia, subproduto do exército, carrega hoje uma simbologia de proteção e de ordem, como se fosse o único grupo na sociedade capaz de “parar o caos”. Não é raro, ouvir da boca de qualquer homem de meia idade, o apelo para que o governo ofereça mais “segurança”. Porém, “mais segurança”contra quem? Contra as tropas de Bane da vida real, ou seja, aqueles sujeitos “sujos e fedorentos” jogados pelas calçadas, que normalmente as pessoas de classe média ou superior fingem que não os vêem quando passam perto, mas não raro, sentem medo, e isso porque sabem que eles são em potencial um recipiente de crítica irracional a propriedade privada: o roubo (pergunto-me como também não sentem medo de ter uma placa pregada na frente de suas casas dizendo “esta residência é monitorada 24 horas”). Interessante notar que em “Batman, O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, essa camada da população é o sujeito de uma revolução social, cujo Bane é porta-voz, convocando o povo a tomar o poder e julgando e condenando os antes ricos e poderosos pelos séculos de opressão e exploração.
             A mudança no imaginário social para um ponto de vista conservador fica claro nesse ponto: No filme, a Revolução é um sinônimo de caos onde as ruas são tomadas pela vilania e o terror, enquanto a violência controla a política. A classe média (vista no filme como uma espécie de “verdadeiro povo”) tranca-se em casa e “espera a tormenta passar”, fazendo o papel do “bom cidadão”, dócil e sempre dependendo das autoridades babás para protegê-los, enquanto os responsáveis por sufocar a revolução de Bane e dos excluídos e “restaurar a ordem” são os policiais, encabeçado pelo herói burguês e bélico, Batman.  A Gotham City de Bane, deixa nostalgia da Comuna de Paris, da Espanha de 1936 e do Chile de Salvador Allende.

                                                                                                                  Lucas Alexandre Andreto

Os olhos dos pobres


Os olhos dos pobres - Charles Baudelaire




De Le Spleen de Paris (Os Pequenos Poemas em Prosa)

Quer saber por que a odeio hoje? Sem dúvida lhe será mais fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo; pois acho que você é o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar.

Tínhamos passado juntos um longo dia, que a mim me pareceu curto. Tínhamos nos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns, que nossas almas, daqui por diante, seriam uma só; sonho que nada tem de original, no fim das contas, salvo o fato de que, se os homens o sonharam, nenhum o realizou.

De noite, um pouco cansada, você quis se sentar num café novo na esquina de um bulevar novo, todo sujo ainda de entulho e já mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás disseminava ali todo o ardor de uma estréia e iluminava com todas as suas forças as paredes ofuscantes de brancura, as superfícies faiscantes dos espelhos, os ouros das madeiras e cornijas, os pajens de caras rechonchudas puxados por coleiras de cães, as damas rindo para o falcão em suas mãos, as ninfas e deusas portando frutos na cabeça, os patês e a caça, as Hebes e os Ganimedes estendendo a pequena ânfora de bavarezas, o obelisco bicolor dos sorvetes matizados; toda a história e toda a mitologia a serviço da comilança.

Plantado diante de nós, na calçada, um bravo homem dos seus quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazia pela mão um menino e no outro braço um pequeno ser ainda muito frágil para andar. Ele desempenhava o ofício de empregada e levava as crianças para tomarem o ar da tarde. Todos em farrapos. Estes três rostos eram extraordinariamente sérios e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com idêntica admiração, mas diversamente nuançada pela idade.

Os olhos do pai diziam: "Como é bonito! Como é bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes." Os olhos do menino: "Como é bonito, como é bonito, mas é uma casa onde só entra gente que não é como nós." Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que não uma alegria estúpida e profunda.
Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. Não somente essa família de olhos me enternecia, mas ainda me sentia um tanto envergonhado de nossas garrafas e copos, maiores que nossa sede. Voltei os olhos para os seus, querido amor, para ler neles meu pensamento; mergulhava em seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: "Essa gente é insuportável, com seus olhos abertos como portas de cocheira! Não poderia pedir ao maître para os tirar daqui?"

Como é difícil nos entendermos, querido anjo, e o quanto o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam!